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MORTE DE CHE GUEVARA AINDA ASSOMBRA PEQUENA VILA NA BOLÍVIA

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Irma Rosales, cansada após décadas cuidando de sua pequena loja, sentou-se uma manhã, com uma caixa cheia de fotos, e se lembrou do estranho que foi baleado na escola local, há 50 anos.

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POR=Daniel Rodrigues Teodoro

Seu cabelo era longo e oleoso, disse ela; suas roupas tão sujas que podiam ter sido de um mecânico. “E ele não disse nada”, lembrou-se Rosales, quando ela lhe levou um prato de sopa, pouco tempo antes dos tiros e da morte de Che Guevara.

O dia 9 de outubro marcou meio século da execução do médico argentino, batizado Ernesto, que liderou os guerrilheiros desde Cuba até o Congo. Ele foi um obstáculo para os Estados Unidos durante a invasão da Baía dos Porcos, discursou nas Nações Unidas e pregou uma nova ordem mundial, dominada por aqueles que foram marginalizados pelas superpotências.

Sua vida só foi ofuscada pelo mito que surgiu com sua morte. A imagem de sua barba desalinhada e a boina com a estrela se tornou um emblema dos revolucionários românticos por todo o mundo e através das gerações, vista em toda parte, desde os campos de militantes na selva até dormitórios de faculdades.

Porém, os moradores de La Higuera, na Bolívia, que viveram naquela época, contam uma história muito menos mítica, descrevendo um episódio curto e sangrento, onde um pedaço esquecido desta paisagem montanhosa brevemente se tornou um campo de batalha da Guerra Fria.

Agora que a América Latina se lembra da morte de Guevara, a região também enfrenta um maior acerto de contas com os mesmos movimentos esquerdistas inspirados nele.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, derradeiro grupo de guerrilheiros da região, saíram da selva e entregaram suas armas este ano, em uma guerra sem vencedores, mas na qual a Colômbia perdeu mais de 220 mil pessoas.

O movimento de inspiração socialista do falecido presidente da Venezuela, Hugo Chávez, trouxe ganhos em educação e saúde, mas o país está afundado na fome, na agitação e na ditadura.

Até mesmo Cuba, que, durante anos, orgulhosamente viveu sob a bandeira revolucionária içada por Guevara, enfrenta um destino incerto agora que o fim das tensões com os Estados Unidos transcorre sob a administração de Trump.

A Bolívia é uma das últimas democracias da América Latina onde a esquerda permanece no controle, e é difícil para os movimentos políticos crescerem nesse vácuo, disse um dos líderes do país. “Você não pode prosperar ou se sustentar ao longo do tempo se não tiver vitórias e lutas em outros lugares”, disse Álvaro García Linera, vice-presidente do país.

Jon Lee Anderson, que escreveu uma biografia de Guevara e teve importante atuação na descoberta de seus restos mortais – que permaneceram escondidos por soldados até a década de 1990 – diz que tanto Guevara quanto a esquerda já tiveram pontos baixos antes.

“Mas Che permanece meio puro. Um símbolo sempre presente, o ícone. Para onde irá no futuro? Tenho essa ideia de que Che vem e vai”, disse ele.

Um revolucionário desaparece

Nos anos que antecederam sua morte, o paradeiro de Guevara era um mistério geral.

Após ter supervisionado os pelotões de fuzilamento que se seguiram à vitória comunista que ajudou a conquistar em Cuba, e depois de uma temporada comandando o banco central, Guevara de repente desapareceu, em 1965, enviado por Fidel Castro para organizar revoluções no exterior. Ele seguiu em uma missão fracassada para o Congo, depois se escondeu em Dar es Salaam, na Tanzânia, e em Praga.

“Naquela época, as pessoas diziam que ele havia sido morto por Fidel, outras, que ele tinha morrido em Santo Domingo, ou que estava no Vietnã. Diziam que estava aqui ou ali – mas ninguém sabia exatamente”, disse Juan Carlos Salazar, que, em 1967, era um repórter boliviano de 21 anos, começando a perseguir sua primeira grande história.

Loyola Guzmán, líder da juventude comunista na capital da Bolívia, La Paz, seria a primeira a descobrir. Ela recebeu uma mensagem um dia pedindo que fosse a Camiri, uma pequena cidade perto da fronteira com o Paraguai. Disse que não sabia o motivo da reunião.

Guzmán tem 75 anos agora, mas uma foto em janeiro de 1967 mostra-a no auge da juventude, do uniforme e boné de campo, sentada em um tronco de árvore em um acampamento na selva sufocante. Ao lado dela está Guevara.

“Ele disse que queria criar ‘dois ou três Vietnãs'”, contou Guzmán, com a Bolívia servindo de base para uma revolução lá e nos países vizinhos, Argentina e Peru. Ela concordou, e foi enviada para a capital para conseguir apoio para os revolucionários e gerenciar suas finanças.

Em março de 1967, a batalha começou.

Com dicas como a do prefeito, o exército começou a se aproximar de Guevara e seus guerrilheiros.

Entre aqueles que o caçavam estava Gary Prado, então um jovem oficial que havia perseguido Guevara pelas montanhas durante todo o verão.

De seu estúdio na cidade de Santa Cruz, o general aposentado, agora com 78 anos, admitiu que o exército não estava preparado para o início de uma guerrilha em seu território, mas foi auxiliado pelos Estados Unidos com treinamento e a chegada de agentes da CIA, que estava ansiosa para ver Guevara morto.

‘Eu sou Che Guevara’

Em 8 de outubro, um tiroteio começou entre os soldados bolivianos e um grupo de guerrilheiros.

“Mas este ia acabar de forma diferente. Quando uma das guerrilhas se rendeu, ouviu-se um grito: ‘Sou Che Guevara e valho mais para você vivo do que morto'”, recorda-se Prado.

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